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  • Foto do escritorJoana Preto

Mulheres que m'inspiram! ANA ERVEDOSO - o cancro e a escrita!

Esta rubrica é particularmente especial, porque não só a pessoa é especial, como também a história entre mim e a Ana.

Eu tinha acabado de voltar da licença de maternidade ao trabalho, ainda muito frágil, como quem já passou por isto sabe. Trabalhava todos os dias com muitas saudades do meu bebé, com a preocupação da sua segurança na creche e com pessoas que mal conhecia. Estava emocionalmente vulnerável, o que significa que chorava facilmente. Os primeiros meses de vida, como mães, são tramados. Temos muito medo e ao mesmo tempo muita força. As hormonas ainda não "estabilizaram", e o facto de estarmos cansadas torna a mulher mais permeável às emoções fortes.


Um ou dois dias depois de ter voltado ao trabalho, exatamente nos moldes que acabei de descrever, conheci a Ana.


Eu trabalhava num centro de oncologia, e a Ana era uma doente oncológica na altura. A Ana entra no meu gabinete de sorriso no rosto e cabelo bonito. Tinha um corte Long Bob e um castanho luminoso.


Trazia um catéter totalmente implantado (conhecido Implantofix®) e avisou-me logo que era "dos difíceis". Eu sempre fui a enfermeira que gosta de de sentir desafiada, não fico nervosa. Mas naquela altura fiquei. Preparei o material, como mandam as normas, posicionei a Ana da forma que nós (enfermeiros) sabemos, e fiz o que tinha a fazer. Deixei o catéter da Ana preparado para a quimioterapia que se seguia e ainda fiz colheita de sangue para análises.


A Ana sorriu-me e disse que tinha sido a primeira enfermeira a conseguir realizar a técnica na primeira tentativa. Bom, entre colegas, sabemos que é um bocadinho sorte e um bocadinho experiência.


Mas, no meu caso, quando preciso de cateterizar veias de doentes com acessos vasculares muito difíceis costumo fechar os olhos e pedir ajuda. Ajuda a quem? Não sei! Mas peço ajuda, foco e energia. Não queria sujeitar a Ana ao sofrimento da dor aguda provocada pelas agulhas, a somar a todo o sofrimento emocional da doença.

Às vezes falho. E se falho, há sempre um colega para ajudar.

Ora bem, dias como este sucederam-se. A Ana fazia sessões de quimioterapia com frequência e, como tal, estabelecemos relação empática e saudável. Eu passei a ser uma referência para a Ana.


Quem é, ou já foi doente, sabe como é importante e confortante ter um enfermeiro de referência que sabe "como o doente funciona". Para mim, em contrapartida, a Ana era sinónimo de alegria e paz. Trazia-me sempre um sorriso, alegria, histórias para contar.


E eu precisava MUITO disso naquela altura da minha vida. E acho que os nossos encontros nos faziam bem, porque trocávamos experiências de vida e de mães. Eu dava à Ana o que podia e sabia, e a Ana dava-me segurança e força através da sua doença e entendimento da vida.


A Ana é uma mulher muito inteligente.

Mais tarde, bem mais tarde, recebo um convite da Ana para ir ao lançamento do seu primeiro livro - "O Sorriso da Mamã". Claro que fui! No meu código deontológico nada me diz que não posso ter relação com pessoas que foram outrora doentes. E mesmo nas situações em que lidamos com doentes, às vezes é impossível não criar amizade. Algumas energias têm um íman!


Este livro foi muito especial, porque muito do que a Ana escreveu foram as nossas conversas - como ajudava a sua filha (também Joana!) a lidar com a doença oncológica da mãe?


Recomendo a sua leitura! Tal como do segundo livro "Tudo o que Trago Dentro", que é uma linda obra poética, comovente e carregada de verdade sobre as emoções humanas.


Nesse dia, do lançamento do livro, conheci muitas pessoas boas. Percebi que a Ana se rodeava de boa gente. Hoje sei que quando entrei naquele hotel, para assistir ao lançamento do seu primeiro livro, entrava numa porta da vida muito especial, que me traz onde estou hoje. Por isso, obrigada Ana.


A nossa relação profissional, e agora de amizade, ressoou na minha vida de forma muito positiva.

Sem mais demoras, deixo aqui algumas pergunta que fiz à Ana, porque é uma mulher que me inspira e estou certa que também vos vai inspirar pelo seu percurso, tal como se podem fazer coisas bonitas através de histórias menos bonitas.


Descobri que, eu e a Ana, partilhamos gosto por Florbela Espanca. Isso diz muito de nós!


1. Quem é a Ana? Fala-me de ti, do teu percurso na escola da vida!


A Ana tem 46 anos, é natural de Alcochete, mãe de uma menina de 12 anos e licenciada no curso de Professores do Ensino Básico, na variante de Matemática e Ciências da Natureza, pela Escola Superior de Educação de Setúbal (1994-1998).


Leciona no 1.º Ciclo do Ensino Básico desde 1998 e acredita que a escola só o consegue ser, de facto, quando há amor, respeito e partilha entre todos os intervenientes. O privilégio de ser professora baseia-se na criação de laços afetivos e nas relações que se estabelecem e se mantêm pela vida fora. A constante partilha é das coisas mais enriquecedoras que existem na vida.


Ser professora foi um sonho/objetivo que surgiu quando ainda era criança.


Sendo filha única, em casa entretinha-me muitas vezes sozinha. Colocava os bonecos em filas, como nas salas de aula e, passava horas a corrigir exercícios e a mandar fazer pouco barulho (costumamos ser o espelho do que vemos). Curiosamente, hoje em dia, corrigir trabalhos escritos é o que menos gosto de fazer nesta profissão. Sou pouco adepta da burocracia e do gasto de papel em fotocópias. Gosto de aulas práticas, de recursos educativos digitais que permitem momentos dinâmicos e motivadores, da curiosidade e perguntas dos alunos, daquele brilho no olhar, dos sorrisos e gargalhadas felizes que invadem a sala de aula. Do aconchego quando o dia é mais difícil. Gosto muito de contar e ouvir histórias.


Gosto de ler e escrever. Gosto de abraços demorados, de palavras bonitas e sinceras, de gentileza, empatia e compaixão. De dizer e ouvir “AMO-TE”.


Acredito no amor. Em primeiro lugar no próprio e nos restantes lugares, em todos os tipos de amor que nos tornam melhores pessoas, connosco e com quem está ao nosso redor.


Defino-me como alguém alegre que acredita que a vida tem sempre algo de bom para nos oferecer, mesmo quando nos põe à prova. Descobri que uma das minhas maiores e melhores capacidades é a resiliência.


O facto de ter passado por uma doença oncológica em 2019 mudou a minha perspetiva sobre a vida. A noção de tempo é hoje muito diferente.


A vida não se adia, nem os sonhos, nem o que nos faz feliz. A vida é agora! E foi com base neste “mantra” que publiquei duas obras literárias infantis, “O Sorriso da Mamã” (2021) e “Tudo o que trago dentro” (2023).

2. Ana, sempre tiveste uma veia de escritora?


A minha colega Maria da Graça Cabral dirá que sim!

Não me recordo em que situação foi, mas perguntou-me por que não escrevia um livro, já que tinha tanto jeito...


Sempre gostei de escrever poesia e decidi aprender um pouco mais.

Em 2020, durante a pandemia, participei na oficina online Templo da Poesia, uma iniciativa da Câmara Municipal de Oeiras, realizada pelo escritor José Luís Peixoto. Foi bastante enriquecedor e motivador para avançar com a escrita da minha primeira obra literária “O Sorriso da Mamã”.



3. O que te inspira a escrever?


Poder abordar através dos livros, temáticas importantes.

Falar sobre assuntos tabu, como o cancro, com as crianças é algo quase inexistente nas nossas escolas.


Ninguém fala de cancro nas salas de aula e é tão importante desmistificar este assunto. Diria mesmo que é urgente!


Gosto que os meus livros sejam instrumentos/ferramentas para quem deles possa necessitar: mães, professores, pediatras, psicólogos, oncologistas...

Sinto que deste modo se pode fazer a diferença e melhorar, de alguma forma, a vida de alguém.

4. Preferes prosa ou poesia?


Desde que me lembro que gosto de ler e escrever, sobretudo poesia.

Fascina-me a musicalidade e harmonia da poesia.

Os versos que parecem saber exatamente como nos sentimos.


Há poemas feitos à nossa medida, que nos assentam que nem uma luva.

Podiam ter sido escritos por nós...

É maravilhoso...


Lembro-me de, na adolescência, passar tardes a ler os sonetos de Florbela Espanca e de toda aquela dor e sofrimento que transmitia com amores não correspondidos.

Chegava a ficar com o coração apertado e de lágrimas nos olhos.

5. Qual a tua mensagem para o mundo?


“OUVE O TEU CORAÇÃO.”

Respeita a tua verdade, quem és e o que sentes. De que forma serás feliz se não o fizeres?

Obrigada Ana. Cada palavra tua é um ensinamento.


E a si, obrigada por ler!


Joana






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